Gazeta Buenos Aires - Governo Meloni bate recorde de longevidade em uma Itália marcada pela instabilidade

Governo Meloni bate recorde de longevidade em uma Itália marcada pela instabilidade
Governo Meloni bate recorde de longevidade em uma Itália marcada pela instabilidade / foto: Manon Cruz - POOL/AFP

Governo Meloni bate recorde de longevidade em uma Itália marcada pela instabilidade

O governo de extrema direita de Giorgia Meloni se tornará, nesta sexta-feira (4), o mais longevo da Itália no período pós-Segunda Guerra Mundial, um marco notável em um país acostumado à instabilidade política, embora a primeira-ministra enfrente importantes desafios antes das eleições do próximo ano.

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Primeira mulher a governar a Itália, Meloni permanecerá à frente do mesmo Executivo por 1.413 dias, superando a marca alcançada por Silvio Berlusconi em um de seus quatro mandatos.

"Sem dúvida, é motivo de orgulho", declarou à AFP Marco Osnato, deputado do Irmãos da Itália, partido de extrema direita de Meloni.

"Na política externa, a Itália nunca ocupou uma posição tão central, especialmente na Europa", afirmou Osnato.

Segundo analistas, o recorde de longevidade reforçará a imagem da primeira-ministra antes das eleições previstas para 2027.

A Itália, que teve cerca de 70 governos nos últimos 80 anos, se prepara para uma nova disputa eleitoral com Meloni como favorita.

O partido da primeira-ministra lidera as pesquisas, mas vários acontecimentos recentes complicaram seu caminho para a reeleição, explicou à AFP Lorenzo Pregliasco, diretor do instituto de pesquisas YouTrend.

Segundo Pregliasco, Meloni saiu enfraquecida neste ano pela derrota no referendo sobre a reforma da Justiça, resultado que mostrou aos eleitores que "poderia existir uma maioria alternativa" à coalizão ultraconservadora que governa atualmente o país.

- Críticas ao balanço -

A derrota reacendeu as críticas ao desempenho do governo Meloni.

A reforma era um dos três grandes compromissos da coalizão, ao lado do fortalecimento dos poderes da primeira-ministra e de uma maior autonomia regional, propostas que ainda não foram concretizadas.

Segundo a oposição, o Executivo tampouco conseguiu avanços significativos em outras áreas nem enfrentou alguns dos problemas estruturais que prejudicam o país.

"Essa estabilidade não foi aproveitada", afirmou à AFP Chiara Braga, líder dos deputados do Partido Democrático, de centro-esquerda. Segundo ela, não houve melhorias significativas no padrão de vida nem na competitividade das empresas.

As críticas surgem em um contexto de crescimento econômico moderado. A Itália prevê uma expansão de apenas 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, enquanto os salários reais permanecem praticamente estagnados desde o início da década de 1990.

"Este governo buscou, acima de tudo, permanecer no poder fazendo o mínimo possível", afirmou à AFP o economista Tito Boeri.

Os apoiadores de Meloni respondem que seu governo reduziu impostos, aumentou a arrecadação e reforçou a disciplina fiscal em um país com uma elevada dívida pública.

- "Leva tempo" -

Meloni também enfrenta desafios políticos dentro de seu próprio campo ideológico. Parte de seu eleitorado pode ser atraída por Roberto Vannacci, ex-general conhecido por suas posições contrárias à imigração e à comunidade LGBTQIA+.

Recém-criado, seu partido, Futuro Nacional, tem cerca de 7% das intenções de voto e pode desempenhar um papel relevante nas próximas eleições.

Os analistas destacam, porém, que a coalizão governista continua se beneficiando das divisões da oposição de centro-esquerda e do aumento da abstenção.

"Uma parte importante do eleitorado está decepcionada e irritada", afirmou o cientista político Giovanni Orsina.

Segundo ele, muitos eleitores chegaram à conclusão de que ninguém é capaz de resolver os problemas do país.

As principais preocupações continuam sendo o custo de vida, a deterioração do sistema de saúde, a segurança e a imigração.

Em bairros populares como Tor Bella Monaca, no leste de Roma, alguns moradores afirmam que nada mudou em décadas e demonstram frustração com a falta de uma visão de longo prazo para o país.

Outros, porém, continuam confiando em Meloni. "As pessoas esperam ver melhorias de um dia para o outro", afirmou à AFP Annamaria, uma aposentada de 67 anos. "Isso leva tempo, mas a situação está melhorando", acrescentou.

G.Molina--GBA