Gazeta Buenos Aires - Comitê da ONU apresenta argumentos jurídicos para que Estados ofereçam reparações pela escravidão

Comitê da ONU apresenta argumentos jurídicos para que Estados ofereçam reparações pela escravidão
Comitê da ONU apresenta argumentos jurídicos para que Estados ofereçam reparações pela escravidão / foto: Mandel NGAN - AFP/Arquivos

Comitê da ONU apresenta argumentos jurídicos para que Estados ofereçam reparações pela escravidão

Os Estados devem ser legalmente obrigados a oferecer amplas reparações pelos danos causados por seu envolvimento, direto e indireto, no tráfico transatlântico de escravizados africanos, afirmou um comitê das Nações Unidas nesta segunda-feira (31).

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Ao divulgar uma nova interpretação de um importante tratado internacional sobre direitos humanos, o órgão de controle da ONU declarou que o acordo obriga os países a trabalhar para reparar os danos causados pela escravidão e suas consequências.

"Os Estados partes devem implementar medidas abrangentes de reparação para as pessoas afrodescendentes, que cubram todos os aspectos das reparações", afirmou o Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD) da ONU em suas conclusões.

O documento afirma que a justiça reparatória deve combinar "uma ampla gama de medidas de caráter monetário, não monetário e estrutural".

O CERD é integrado por 18 especialistas independentes em direitos humanos, responsáveis por supervisionar a aplicação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, assinada em 1969.

A convenção é integrada por 182 países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, França, Portugal e outros que estiveram profundamente envolvidos no tráfico transatlântico de escravizados, no qual milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram levados para as Américas para trabalhar em condições brutais — e frequentemente mortais — entre os séculos XVI e XIX.

Em muitas dessas nações, as pessoas negras continuam enfrentando discriminação e situações de pobreza.

As conclusões representam "um momento decisivo", disse à AFP a advogada liberiana Pela Boker-Wilson, especialista em direitos humanos e integrante do comitê.

"Enfrentar as injustiças históricas não pode estar dissociado da luta contra a discriminação racial atual", comentou.

Segundo a advogada, o documento explica que os países devem adotar "medidas ativas destinadas a restaurar a dignidade, a justiça e a igualdade que as pessoas afrodescendentes merecem".

Embora a recomendação do CERD não tenha caráter vinculante, Boker-Wilson ressaltou que possui "um peso significativo".

A análise foi divulgada após a Assembleia Geral da ONU adotar, em março, uma resolução que reconhece que o comércio de escravizados foi "o crime mais grave contra a humanidade", apesar da oposição dos Estados Unidos e de alguns países europeus.

Embora a campanha a respeito da justiça reparatória tenha se concentrado muito nos Estados Unidos, Boker-Wilson lembrou que se trata de "uma iniciativa global".

J.Cardozo--GBA