Gazeta Buenos Aires - Comunidade LGBT dos EUA chora a morte de sua 'diva' Dolly Parton

Comunidade LGBT dos EUA chora a morte de sua 'diva' Dolly Parton
Comunidade LGBT dos EUA chora a morte de sua 'diva' Dolly Parton / foto: LEON NEAL - AFP/Arquivos

Comunidade LGBT dos EUA chora a morte de sua 'diva' Dolly Parton

Em um bar gay de Washington, Cameron Austin vestiu um traje completo de caubói, com botas combinando, para tomar um drinque enquanto "When I'm Gone", de sua "diva" Dolly Parton, ecoava pelos alto-falantes.

Tamanho do texto:

"Não cresci ouvindo muitos dos ícones gays em que normalmente pensamos, mas ela é quem esteve comigo desde o início", disse o jovem de 28 anos, natural do leste do Tennessee, durante uma festa em homenagem à estrela da música country, que morreu na terça-feira (25).

"Dolly sempre esteve presente para mim", acrescentou.

Na morte, assim como em vida, Parton se tornou uma rara figura capaz de unir um Estados Unidos profundamente polarizado.

Seu legado é celebrado tanto pela Casa Branca de Donald Trump quanto, sobretudo, pelos bares gays do país.

Na espirituosa rainha do country, conhecida pelos figurinos cobertos de pedrarias, muitas pessoas gays e lésbicas viram uma aliada improvável, mas firme, que defendeu sua dignidade e seus direitos muito antes de isso se tornar popular.

"Acho que ela desafiou as expectativas de muitas maneiras. Acho que, quando muitos de nós temos famílias com as quais talvez não tenhamos as melhores relações, que podem ser sulistas ou religiosas, ver alguém que vem desses mesmos lugares e nos aceita, nos faz desejar algo que talvez nunca tenhamos tido", disse Austin à AFP.

- "Eu os aceito" -

Depois de sair da pobreza extrema em uma área rural, Parton nunca planejou se tornar um ícone gay, mas abraçou plenamente o papel e demonstrou um carinho especial por artistas drag.

Certa vez, ela se inscreveu discretamente em um concurso de imitadoras drags de Dolly Parton... e perdeu.

"Simplesmente entrei na fila e atravessei o palco, e eles acharam que eu era um gay baixinho. Fui a que recebeu menos aplausos", contou, rindo, à ABC News em 2012. "Por dentro, eu estava morrendo de rir", acrescentou.

Sua música "Family", de 1991, defendia explicitamente a tolerância à diversidade em uma época em que a crise da Aids devastava e estigmatizava a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, trans e queer (LGBT).

Em contraste com sua exuberante imagem pública, Parton era extremamente reservada sobre outros temas da política cotidiana, em consideração aos fãs de diferentes posições políticas.

No entanto, ela expressava sua defesa dos direitos da comunidade LGBT. "Acho que sempre fui aceita pela comunidade gay porque eu os aceito", disse Parton certa vez à CNN.

"Eles sabem que não os julgo. Acho que as pessoas são quem são, e eu não sou Deus, não sou juíza. Devemos amar uns aos outros exatamente por quem somos e pelo que somos."

Nadine Hubbs, professora de estudos sobre mulheres e gênero e de música na Universidade de Michigan, afirmou que a formação religiosa de Parton moldou sua postura acolhedora em relação à comunidade LGBTQ, em vez de afastá-la dela.

"O avô dela era um pastor pentecostal, e ela cresceu cantando naquela igreja e sempre falou de forma muito clara sobre sua fé", disse Hubbs à AFP.

"Dolly mostrou como era possível não apenas amar e aceitar a si mesmo e aos outros, mas fazer isso dentro de uma perspectiva profundamente cristã", algo que tinha um apelo particular no sul do país, uma região profundamente religiosa, explicou Hubbs.

Parton também tratava o tema com bom humor. Em uma participação em um programa de televisão noturno em 2019, ela adaptou a famosa letra de sua música "Jolene" para "Drag queen! Drag queen!".

Em 2023, quando políticos do Texas tentaram criminalizar muitas apresentações drag, Parton apoiou uma artista que combatia a proposta.

Brigitte Bandit, uma drag queen de 34 anos de Austin, que pediu para ser identificada apenas pelo nome artístico, levou um livro infantil sobre Parton ao Capitólio estadual do Texas, onde prestou depoimento contra o projeto de lei.

"Senti que aquilo tinha tudo a ver comigo como drag queen e, por isso, levei o livro quando fui depor", contou Bandit à AFP.

Mais tarde, Parton providenciou discretamente para que Bandit fosse surpreendida com um violão personalizado, decorado com pedrarias e com as palavras: "Para Brigitte, com amor, Dolly".

"Ela é uma diva", afirmou Bandit, acrescentando que esperava que as pessoas "reservem um minuto para ouvir sua mensagem e sejam um pouco mais como Dolly".

A.Mendoza--GBA